Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

DIVAGAR DEVAGAR-2

Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho, às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas.

Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho, às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas.

Momento Poético - 110

24408-Dali-Salvador2.jpg

                                                        (pintura de Salvador Dali)

 

devorando estrelas dos nossos poentes oníricos

 

na vida

que ambos desconhecíamos

havia silêncios

que devoravam as estrelas dos nossos poentes oníricos

onde os beijos perdidos

mergulhavam na monotonia

de horizontes de fogos-fátuos

que se deixavam diluir

no celofane luminoso dos lençóis lacustres

e nas ondas dos mares atribulados…

 

havia

a subjugação mental

de todas as luzes

que ofuscavam o lado cósmico dos nossos corpos

entrelaçados num emaranhado de nós

quase maquiavélicos

de tantos espelhos côncavos

e maculados de imagens distorcidas

que procuravam refúgio

nas fendas desmaiadas dos seus reflexos…

 

pouco a pouco

íamos desvendando

a parcela finita

desse ignoto modus vivendi

e a nossa inocência de raízes desconhecidas

tornava-se uma verdadeira caixa de Pandora

desmantelando todas as borboletas efémeras

que sobrevoavam os nossos sonhos…

 

assistíamos

impunemente

ao irresistível incêndio da nossa carne

enquanto o nosso amor

despoletava uma autêntica explosão de glândulas e gónadas

estonteadas na psicose

quase paranóide 

duma simbiose visceral e psíquica…

 

ambos construíamos

as alucinantes manhãs

de frutos em maturação lenta

ao som das harpas solares

que nos inebriavam a sensibilidade timpânica

e nos preenchiam  os poros

e a macieza duma cútis

faminta  de esotéricas sinestesias…

 

na  terna agitação

de beijos fluidos

em calorosa cumplicidade de orgasmos apetecidos

continuávamos impregnados nos silêncios

que devoravam auroras cristalinas

e estrelas dos nossos poentes oníricos

ousadamente alucinados

no esplendor

dum leito de prazeres intemporais.

 

 (batista_oliveira - 29/01/2019)

Momento Poético - 109

 

Alex Alemany - Tutt'Art@ (44).jpg

                                    (pintura do artista espanhol Alex Alemany)

 

Sabor a doce fruta

 

Repara amor    nos meus olhos brilhantes

quando miram teu corpo desnudado…

Parecem refletir raios dourados

nas ondas    dum mar terno e flamejante.

 

Ver-te    assim    na nudez pura    excitante

envolta num cendal    de tudo e nada

Vénus de Boticelli    desnudada

faz-me sentir momentos deslumbrantes

 

que sempre partilhei    em nosso leito

numa libidinosa    ousada luta

contigo coladinha    peito a peito.

 

Na tua pele    bela e impoluta

repouso o meu olhar    num tom perfeito

e sorvo o teu sabor    a doce fruta.

 

(batista_oliveira - 22/01/19)

Momento Poético - 108

 

Knight_Daniel_Ridgway_Women_Washing_Clothes_by_a_S

                     (pintura de Knight Daniel Ridgway, artista americano)

 

As lavadeiras da margem do rio

 

Longe    e em filas    nas margens espermáticas dum rio luzente

em seus declives    grupos de mulheres    incendiadas de calores e prazer 

dedilhavam  melodias manuais    na pele flácida do sabão    ao correr da espuma que se esparzia nos poros e saltitava    na azáfama do seu ofício.

 

Num alor    de peito arfante    o agreste aroma emanava das axilas

e iluminava a auréola que resplandecia   na floração do cansaço

esquecido entre a memória dos dias soletrados    em cada hora de noites perdidas.

 

E a água corria   fugindo do peso inclinado das montanhas

drenando a sua fecundidade    na alvura dos tecidos ensaboados

e amimados pelas cítaras digitais das ninfas

que desafiavam o feitiço do vento e a espuma de tanta labuta.

 

Do pulmão dos arbustos    vinha o ritmo do canto dos galos que

numa desgarrada de silêncios e roucos harpejos    

marcava a harmonia do canto e do encanto das lavadeiras

em poses sensuais    rasando o erotismo da Vénus de Boticelli.

 

O vento   com mãos suaves    remexia os decotes e    carinhosamente

ondulava as abas dos vestidos e saias   deixando exalar um aroma orgástico

em conluio com a verdura emanada das margens espermáticas do rio luzente

num amplexo húmido de belas curvas e contracurvas carnais

 

Na folhagem das árvores    pássaros ocultos   com olhos brilhantes e apaixonados  dardejavam cio ao longo das margens e chilreavam a sonata de verão

numa lasciva simbiose com o murmúrio plangente das águas da cachoeira

 

O toque dos sinos    volitando ao ritmo da valsa triunfante dos pássaros

libertavam sonoridades dos dias ridentes    como adubo aromático

sobre as flores matizadas e a verdura da pradaria.

 

E as lavadeiras    num estilicídio melodioso    quase plangente

semeavam as lágrimas das roupas    sobre as ervas das margens suadas

e verdes de vergonha    pela claridade libidinosa dos corpos  

ousadamente decotados e exultantes de sensualidade adormecida.

 

(batista_oliveira - 21/03/17)

Momento Poético - 107

rob hefferan.jpg

                                          (pintura do artista britânico Rob Hefferan)

 

A ternura espiritual dos invernos

 

 

Os invernos repetem-se     

numa autêntica melopeia de espadas de gelo    

estalactites de lembranças doutros invernos    

que ainda guardávamos    

na doçura e ternura dos nossos baús    

ocultos na penumbra dos jardins da nossa longínqua infância    

sob o caramanchão das sombras de verões    

já derretidos na lonjura dos nossos horizontes mnésicos.

 

O frio    

em cúmulos de neve, bátegas e ventanias    

abraça-nos numa paixão desumana    

que não se preocupa com o calor de corações apaixonados    

nem com a frigidez dos cérebros tenebrosos    

drenando ódios intemporais.

 

O sangue    

na sua glaciar imobilidade    

não permite que as realidades dum mundo em erupção    

brotem sob os auspícios de vagas solares    

e as árvores

desnudadas na gélida palidez de seivas estonteadas e viscosas    

nem sequer reconhecem a nossa presença    

e parecem preocupar-se mais com o manto de morte    

que lhes beija e aduba as raízes    

com abortos de sementes    

sonhos fátuos que apodrecerão    

na recusa de construírem as próximas aves primaveris.

 

Somos

verdadeiras marés de invernos sombrios e    

numa lentidão de desconforto    

caminhamos ao som do tiritar de olhares pasmados    

que nos cruzam e ferem com esgares de afastamento e repúdio    

deixando o rasto de perfumes

misturados com os   fumos vadios

que exalam das lareiras

dos casebres de ninguém.

 

O que resta das flores

mora soterrado nas marcas profundas    

que já foram passarela de leves e suaves pés femininos    

e deixaram apenas o hálito do húmus fresco e obscuro    

de tanta  ausência de luz e cegueira temporal.

 

Num tempo

que é de encanto e gélidas brisas

procuramos o tempo vão

em que carregávamos dentro do peito

os abismos de tanta luz e calor

com um sentimento de termos encontrado as quimeras

que poderiam fazer-nos rejuvenescer de tantos invernos

acumulados na poeira das unhas

quebradas no cansaço de ciclópicas batalhas intemporais.

 

Sentado

à mesa das memórias invernosas

deixo-me fascinar pelo copo de vinho

que bebo no aconchego dos meus sonhos

e peço que a minha amada me acompanhe

e esgote comigo

a ternura espiritual dos invernos

engarrafados nas entranhas de tantos socalcos enregelados.

 

Na cegueira invernosa    

de tempos amalgamados por desespero e receios   

ancorámos todos os nossos medos

na coragem inventada em cada libação espiritual    

tentando proteger-nos da solidão    

que se opõe  à reinvenção da vida    

e à protecção dum planeta

que possa degelar e  florescer

em futuros encantos primaveris.

 

 

(batista_oliveira - 08/01/19)      

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D