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DIVAGAR DEVAGAR-2

Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho, às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas.

Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho, às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas.

Momento Poético - 107

rob hefferan.jpg

                                          (pintura do artista britânico Rob Hefferan)

 

A ternura espiritual dos invernos

 

 

Os invernos repetem-se     

numa autêntica melopeia de espadas de gelo    

estalactites de lembranças doutros invernos    

que ainda guardávamos    

na doçura e ternura dos nossos baús    

ocultos na penumbra dos jardins da nossa longínqua infância    

sob o caramanchão das sombras de verões    

já derretidos na lonjura dos nossos horizontes mnésicos.

 

O frio    

em cúmulos de neve, bátegas e ventanias    

abraça-nos numa paixão desumana    

que não se preocupa com o calor de corações apaixonados    

nem com a frigidez dos cérebros tenebrosos    

drenando ódios intemporais.

 

O sangue    

na sua glaciar imobilidade    

não permite que as realidades dum mundo em erupção    

brotem sob os auspícios de vagas solares    

e as árvores

desnudadas na gélida palidez de seivas estonteadas e viscosas    

nem sequer reconhecem a nossa presença    

e parecem preocupar-se mais com o manto de morte    

que lhes beija e aduba as raízes    

com abortos de sementes    

sonhos fátuos que apodrecerão    

na recusa de construírem as próximas aves primaveris.

 

Somos

verdadeiras marés de invernos sombrios e    

numa lentidão de desconforto    

caminhamos ao som do tiritar de olhares pasmados    

que nos cruzam e ferem com esgares de afastamento e repúdio    

deixando o rasto de perfumes

misturados com os   fumos vadios

que exalam das lareiras

dos casebres de ninguém.

 

O que resta das flores

mora soterrado nas marcas profundas    

que já foram passarela de leves e suaves pés femininos    

e deixaram apenas o hálito do húmus fresco e obscuro    

de tanta  ausência de luz e cegueira temporal.

 

Num tempo

que é de encanto e gélidas brisas

procuramos o tempo vão

em que carregávamos dentro do peito

os abismos de tanta luz e calor

com um sentimento de termos encontrado as quimeras

que poderiam fazer-nos rejuvenescer de tantos invernos

acumulados na poeira das unhas

quebradas no cansaço de ciclópicas batalhas intemporais.

 

Sentado

à mesa das memórias invernosas

deixo-me fascinar pelo copo de vinho

que bebo no aconchego dos meus sonhos

e peço que a minha amada me acompanhe

e esgote comigo

a ternura espiritual dos invernos

engarrafados nas entranhas de tantos socalcos enregelados.

 

Na cegueira invernosa    

de tempos amalgamados por desespero e receios   

ancorámos todos os nossos medos

na coragem inventada em cada libação espiritual    

tentando proteger-nos da solidão    

que se opõe  à reinvenção da vida    

e à protecção dum planeta

que possa degelar e  florescer

em futuros encantos primaveris.

 

 

(batista_oliveira - 08/01/19)      

 

 

 

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