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DIVAGAR DEVAGAR-2

Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho, às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas.

Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho, às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas.

Momento Poético - 58

 

pintorBob Roos.jpg

                                  (pintura de Bob Ross)

 

 

memórias da rua da minha infância

 

A minha rua da meninice travessa ganhou raízes ali num cantinho paredes-meias com o paraíso que construí zangado com os piões que ficavam a zungar num autêntico rodopio de bailarino campestre.

 

Massacrava as bolas feitas de farrapos roubados na alfaiataria Brites ─ ratava o que era do meu pai deduzindo que também era meu ─ saltava em doidas correrias competindo ombro a ombro ao lado do cavalo de Napoleão tricas da minha imaginação.

Nas bermas o cheiro da urina urgente que escorria pela carcela mal abotoada e sentia que vivia numa cloaca entre a esterqueira e as sarjetas.

 

Era o meu mundo infantil onde circulava de roda metálica empurrada pela guia esculpida em arame num sonho de ciclista pedestre buscando metas inatingíveis.

Guerreiro dum passado de flechas lavradas nas varetas de guarda-chuvas esqueletos arrumados na sucata e velharias… utilidades dos restos inúteis.

 

Lutava não revoltado contra a fome mas contra todos e ninguém soltando refrãos fascistas de “Angola é nossa” vomitados das telefonias que tentavam levantar a moral de um povo eternamente escravizado e desmoralizado.

 

Recordo o macadame que virou alcatrão ainda na minha infância e me deixou tantas vezes os joelhos rasgados na penitência de mil encontrões e cicatrizados pela mezinha da saliva ressequida.

Imponentes os primeiros automóveis passavam aleatoriamente permitindo balizas na estrada e curtos estiramentos intervalados pelo esforço.

 

Num desencontro de movimentos procurava resgatar o medo e os sustos duma vida em quotidiano alvoroço mas matizada de milhares de instantes de magia, sem erros da caminhada nos córregos da esperança que povoava os meus dias inquietos e algumas noites de insónia.

 

Não se viam os pássaros na rua nem comida lá nascia, mas o seu piso era companheiro da nossa fome nosso alimento quotidiano.

Nessa altura não existiam na minha memória as palavras nem o poema laudatório e idílico das bucólicas aldeias da minha infância.

A verdadeira poesia rondava os telhados cobertos de musgo onde a passarada descansava o fumo se esparzia e a luminosidade do dia se refletia.

 

Havia alguns cheiros talhados a golpes de faca e outros com suaves carícias de fruta fresca.

O cheiro a fritos e assados evadindo-se pelas portas e janelas das cozinhas de longe a longe um aroma de café que se imiscuía pelas narinas numa saborosa cumplicidade de apetite contido e prazer.

Cheirava a erva-cidreira a hortelã das bermas e ás flores que nos miravam dos muros das casas e ouvia-se a água fluindo da presa da Ribeira correr nos regos das valetas e tombar nos quintais dos vizinhos.

Brincos de água adornando paredes limosas com líquenes e verdes heras pendentes autênticos refúgios de lagartixas e poiso de borboletas e outros insetos vadios.

 

Nessas ruas aprendi muitas palavras que hoje semeio nos poemas lavrados na memória dum passado que foi presente de antanho.

Por vezes nem sei que fazer com essas palavras que me trazem os beijos mas também os gritos que ali colhi em tantas manhãs de eternidades sonhadas.

No alvoroço dos dias procuro reconstruir poemas que alinhavei na solidão da alfaiataria de meu pai vivendo das tesouradas que me rasgaram momentos breves duma infância bem sofrida e deixaram cicatrizes para além do sonho que morreu entre mil tecidos que se transformaram no brilho e vaidade das pessoas.

 

A minha rua traçou-me um limite de linhas vermelhas que nunca ousei transpor mas deixou-me um tapete de espuma que me conduziu através de palavras e poemas para uma caminhada de luz e para um futuro que me tornou senhor de muitas ruas mas de nenhuma em particular.

Almocreve de palavras curtidas na agrura da infância rondei os caminhos do vento da chuva e da secura, deixando pegadas de inocência num passado cujas memórias repousarão um dia no esquecimento de tantas coisas que quis e não consegui que pude ter e rejeitei que tanto amei e nunca senti.

 

Hoje passo na rua e sinto ainda os aromas que se volatilizam das frinchas das casas, mas sinto que não aprendi o verdadeiro sentido desses aromas. Recordo o sabor do café servido em noites de suores e arrepios mas não consigo lembrar o paladar de cada trago que tanto me satisfez.

Apenas restam as palavras que transportavam o calor das conversas deixando espairecer na atmosfera a memória de tantas vozes já caladas no silêncio dos tempos de tantas vozes que deixaram mensagens inesquecíveis poemas de amor e sofrimento.

 

As palavras “minha rua” ficarão eternamente ligadas a uma infância que teima em afastar-se transformando o que foram oportunidades numa autêntica muralha de obstáculos que só novas palavras como setas infalíveis farão desmoronar.

 

(batista_oliveira - 07/11/2017)

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